A cidade de Belém tem vivido uma verdadeira busca coletiva pelo resgate do Carnaval de rua, aquele festejo mais família, a iniciativa de amigos – sem esperar por município ou governo - é a forma que a população encontra para não deixar a folia morrer. Todos os anos surgem novos blocos, alguns já colecionam anos de tradição apenas entre amigos e, assim, cada um se diverte da melhor forma possível.
Ontem dia 9, saiu às ruas da capital paraense o bloco carnavalesco Os Irrecuperáveis, que completa 10 anos de brincadeiras. “O bloco começou com um amigo que convidou o amigo, que convidou mais outro”, diz Fatinha Silva, uma ‘irrecuperável-mor’, como são designados os organizadores e fundadores do grupo. A cada ano, os amigos compõem uma marchinha, marcam ensaios e realizam seu próprio Carnaval.
Fatinha garante: “É muito tranquilo, o nosso bloco é bem familiar, todos se conhecem, as pessoas vão para brincar”. Para comemorar 10 anos de alegria, durante sua tradicional feijoada carnavalesca, eles também estão vendendo seu CD Os Irrecuperáveis – 10 anos de folia. A organização até dá um pouco de trabalho, mas para eles, o que vale mesmo é garantir a brincadeira do jeito antigo.
“Era muito diferente há uns 20 ou 30 anos, as pessoas saiam mesmo para as ruas, os bairros mais tradicionais e onde o Carnaval era mais divertido e até em família, são os (locais) que hoje sofrem com a violência”, relembra Nabor Santos, 71 anos, sobre os carnavais que viu em bairros como o Guamá e o Jurunas. “Antes as pessoas ficavam literalmente na rua, tinham mais confetes, música boa. Hoje é só aparelhagem, as pessoas preferem ir para as praias e Mosqueiro é um inferno no Carnaval, porque tem poucas opções mesmo, a maioria é muito perigoso, sempre acaba dando em briga”, completa.
Bloco Elka atrai até turistas
No próximo sábado, dia 15, outro bloco que arrasta multidões em Belém vai para a rua. É o bloco Elka, que se concentra na Praça do Carmo, às 15h. Sérgio Paul, um dos organizadores do Elka, conta que o bloco nasceu em 2007, quando ele e outros dez amigos conversavam sobre o Carnaval de Rua em Belém, observando que faltava um movimento cultural capaz de resgatar essa folia trazendo os amigos e a família de volta para as ruas da cidade, cantando e dançando com segurança e organização. “Assim resolvemos fundar o bloco Elka, com algumas premissas fundamentais: música típica de Carnaval - samba, samba-enredo, marchinhas -, organização, segurança, sem fins lucrativos, responsabilidade ambiental e muita alegria”, diz ele.
O grupo ainda procura incentivar outros grupos de amigos a fazer o mesmo. “Hoje, oito anos depois, estamos felizes por ter participado deste processo, pois vários blocos surgiram e Belém já pode dizer que respira um clima de pré-Carnaval que agita os foliões da cidade. Este ano estamos recebendo algo em torno de 200 turistas que estão vindo para o Elka, são amigos de Macapá, Goiás, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo etc.”, conta Sérgio.
Escolas de samba apostam nos arrastões culturais
As escolas de samba de Belém têm lutado pela valorização dos desfiles de Carnaval e também estão nessa luta pela valorização da folia de rua. Alguma promovem arrastões culturais, incentivando as pessoas a levarem seus filhos, netos e amigos para uma festa “em família”. A ideia é que as pessoas se reúnam em torno de uma escola, lutem juntas por ela, tornando-se uma grande comunidade, sem brigas, só pensando em diversão.
Uma das escolas que têm realizado arrastões bastante animados pela cidade é a Associação Carnavalesca do Bole-Bole. Os brincantes se concentram na sede da escola, no Guamá, para sair às ruas cantando o novo samba-enredo “A Trilogia - O canto que vem da Amazônia”, uma homenagem ao trio musical formado por Lucinha Bastos, Mahrco Monteiro e Nilson Chaves. “Esse é o nosso intuito, trazer os jovens e os antigos para a porta de casa, para acompanhar. No arrastão deste domingo a gente quer trazer uma bandinha para tocar marchinhas, nossa vontade é trazer o Carnaval dos bons tempos”, declara Bacurau, diretor da Bole-Bole.
A população “parece que está carente de alguma coisa”, diz Bacurau. A falta de uma praça segura, um cinema, um local adequado para se reunir e se divertir tem afetado a vida dessas pessoas, ele considera. “O Guamá é um bairro carente de algo assim. Quando chega o Carnaval e nós vamos passamos pelas ruas, é uma forma que o povo encontra para se divertir. Domingo passado fizemos o arrastão pela parte da manhã e pegamos os feirantes chegando, o pessoal que sai cedo de casa, saímos fazendo um verdadeiro arrastão, todo mundo foi atrás!”, se anima em dizer.
E o Carnaval está aí, até março ainda terão muitos amigos querendo formar seus próprios blocos, e as baterias das escolas de samba ainda vão passar muitas vezes pelas ruas da Pedreira, Jurunas, Guamá, Terra Firme. Quem quiser acompanhar essa folia amigável é só ficar atento.